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  • Thainá Carvalho
  • 29 de abr. de 2018

Passou a frequentar a Igreja após a viuvez inesperada. Ia para fazer perguntas sem resposta e culpar Deus, porque a raiva da perda era maior que a gratidão por ter amado. Sua mulher havia sido um pouco de tudo e tudo ao mesmo tempo. Agora ele carregava o vazio e o silêncio de uma morte que parecia nunca chegar para ele também.


 
 
 
  • Thainá Carvalho
  • 29 de abr. de 2018


Fumava em frente ao hospital, porque era sua forma de protestar. Sua mãe nunca fumara por causa de religião e, agora, tinha câncer. Nem se importou muito quando soube da doença, pois não via a mulher desde que fugira de casa, mas resolveu visitá-la de qualquer forma. No momento em que viu a mãe, os remédios, o corredor lotado de macas, e os médicos cansados, decidiu fugir de novo. Assim que saiu pela porta, parou, abriu a bolsa e pegou o cigarro. Protestou contra tudo, apagou o remorso na calçada com a sola do sapato, e foi para o ponto de ônibus.


 
 
 
  • Thainá Carvalho
  • 29 de abr. de 2018

Saiu da cabine e foi para o convés ainda nervoso da última briga. Não adiantou nada terem embarcado naquele cruzeiro. Depois de um primeiro momento de romance forçado, continuavam a trocar insultos e gritar os rancores de treze anos de relação. Qualquer intenção sexual foi por água abaixo depois que ele começou a marear no segundo dia da viagem. Concluiu que não tinha mais como salvar um casamento afogado. Vomitou.

 
 
 

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