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  • Thainá Carvalho
  • 20 de set. de 2017

Já era a segunda vez que aquele casal passava por ali. Ou tava vendo dobrado?

- Querem não?

Levantou o copo de cachaça e balbuciou mais um convite. Eles a ignoraram e apertaram o passo. Era sempre assim. Ela riu.

Já estava ali na parede do bar de seu Nilo há um tempinho... ou seria mais? Tava era bom que não lembrava! Contou nos dedos e mesmo assim se atrapalhou. Mas onde ela tava antes, então? Ah, sim. Na lagoa. Fora pra lá catar algumas garrafas. Só não deu pra dormir porque fedia demais. Ali em seu Nilo era bom. Não boliam com ela e ainda davam uma ou outra pinga.

Agora era um moleque pretinho que ia passando, seguido por um cachorro.

- Menino bonito.

Lembrava seu filho. Por onde andava Josué? Tinha muito tempo que não sabia dele. Ele era assim, solto, largado, de pé no chão. E ela que cuidava tanto pra que ele andasse alinhado, mas não tinha jeito com a pobreza. Volta e meia chegava em casa com o pé duro de lama da feira. E ela se retava.

- Ah peste!

O cachorro parou pra cheirar o carrinho cheio de tralha, daqueles de supermercado. Nem demorou muito e o bicho já ia levantando a pata.

- Ah peste!

Mas ela não se importou. Mal eram dela aquelas coisas catadas por aí, achadas em pedaços de caminho. Tinha o que? Umas peças desencontradas de roupa, uma caixa de latão vazia, umas fitas e umas recordações gastas. Já tinha gasto tudo na vida - e mal, como aquele copo de cachaça. Ah, quem ligava! O que passou, passou. Quando era nova, passava o dia plantando com o pai. Quando era moça, passava na frente dos rapazes. Quando era empregada, passava roupa. Quando era mãe, passava necessidade. Quando era velha, passava. Não tinha noção das horas. Só sabia que quando seu Nilo fechava o bar, eram onze.

- Boa noite, dona maria.

Ela gostava desse nome. Devia ser mais bonito que o seu. Fazia tanto tempo que não era chamada por ninguém que já nem lembrava qual era. Era Naldo quem gostava do seu nome, chamava por nada e por tudo. Aí ela cansou e foi embora. Deixou Josué, Vanda, Gil, tudo com o pai que só fazia gritar. Não foi por mal mas também não foi pro bem. Ela já não prestava, era bicho ruim, azedo com o que tinha e pelo que não tinha. Saiu e só voltou quando Naldo ficou mudo, parado dentro do caixão. Mas era tarde, seus filhos tavam sabe-se lá onde e ela não deu fé em procurar. Ao invés disso, achou Cleovan, Marcos, Juca, Bené, Carlos e uma cama pra todos eles. Ficava lá na Travessa São João, número trinta e dois, num cortiço velho que só tinha de novo suas colônias. Ah, como ela gostava de perfume, de cheiro bom. Uma gotinha só no pescoço, atrás da orelha, tava bom. Eles não ligavam de pagar essa regalia se ela abrisse as pernas. Quando o pescoço enrugou, as pernas fecharam e seu corpo começou a feder.

Um homem passava pelo outro lado da rua. Ela levantou a saia desfiada.

- Quer?

- Sua puta velha!

Gil falou bem desse jeito quando encontrou ela na Travessa. Foi dia desses? Parecia que era, quando ela vivia caída nas escadas do cortiço, que o quarto dela já tinham tomado. Mas era bom, era quente. O filho foi quem não gostou porque queria dinheiro. Ele tava meio doido, azuletado, sem atinar com o que falava. Deu um tapa, dois, três até, e se ela tivesse dinheiro ela dava. Mas na hora a única coisa que tinha era um dente, dois, três até? Tinha era nada, que um caiu com o tebefe. O dente ela segurou com a mão, o choro não deu. Ele disse que ia voltar pra matar ela, que ela era uma droga e que droga era pra matar. Vai que ele voltou mesmo, mas aí ela já tinha ido embora num caminhão que ia pro sul. E foi a primeira vez que não andou de pé.

Sentou no chão porque já tava começando a ficar com sono. Só não dava pra dormir com o barulho de tanto avião que passava. Era o que mais tinha naquele lado: avião e militar. Uns homens bonitos de farda azul que saíam em bando do quartel que ficava do outro lado da praça. Nem ligavam muito pra ela, passavam era longe pra não sujar o sapato naquela laminha preta perto do bar. O céu também tava preto, mas tinha muita estrela. Ela ainda lembrava de uns nomes de estrela que sua vó tinha ensinado. Não tinha como esquecer, elas tavam sempre lá em cima vendo todas as suas andanças, desde Ribeirópolis até cá no miolo do país.

Tava com muita fome. Mas se pudesse, queria mesmo era outra cachaça. Era bom pra aguentar o frio, o vento batendo na cara. Puxou o gorro esfiapado pra ver se conseguia cobrir a nuca.

- Queria era outra!

Embolando tudo no sono, já nem sabia mais o que queria, se era outra cachaça ou outra vida. Sonhou que Deus era um garçom.

 
 
 
  • Thainá Carvalho
  • 13 de set. de 2017

A vida é meio bipolar, louca e linda. Há que se ter paciência, mas ela não vai desistir de você.

- Queria que você morresse

Assim. Sem câmera lenta, sem música dramática. Ela queria que ele morresse e ele não podia falar nada. Ela já tinha dito muitas coisas loucas quando estava fora de controle. Depois, arrependia-se de todas elas. Ela abraçava, pedia perdão e perguntava como ele a aguentava. Nem ele sabia. Mas dessa vez, foi diferente.

Ela quis que ele morresse. Sem grito dramático, sem pausa lenta. Veio quase como um desabafo em voz baixa, seguido por um silêncio que esfriou toda a quitinete. Ele ficou com frio e começou a suar. Sentia vontade de vomitar e a boca estava aguada. Não ousava se mexer com medo de que qualquer movimento já fosse resposta.

Ela não o olhou. Falou o que falou de costas, enquanto tomava café. Ela devia ter escutado o barulho da porta e sabia que ele acabara de chegar do trabalho. Foi um desses raros dias em que conseguira chegar cedo. No escritório, sempre pediam pra ele tirar todas as xerox nos últimos minutos do expediente. Foi o tempo de colocar as chaves em uma mesinha ao lado da porta e se perguntar como ela estaria hoje.

- Queria que você morresse

Ela não estava bem. Já tinha um tempo que aquele lado do transtorno se manifestava. Quando as mudanças de humor começaram ele não entendeu muito bem. Afinal, ela estava tomando os remédios, não estava? Não, não estava. Depois de uma busca minuciosa no apartamento por comprimidos escondidos, ela lhe confessara que havia dado descarga em todos. Chorara e dissera que aquilo não era vida. Ele só pensara em como haviam sido caros os comprimidos e os compromissos.

De súbito, pegou as chaves e saiu. Não olhou nos olhos dela, não tocou nela, mas sabia o que ela pensava. Ela queria que ele morresse. Desceu as escadas com pressa de quem tinha hora e lugar marcados. A passos rápidos, caminhou para o lago. Já podia sentir a brisa fresca e o barulho da balsa das 6, que sempre estava cheia de gente. Teria que esperar ela sair do cais para fazer o que queria.

Resolveu descer ao longo da orla para fazer hora. Não quis pensar muito ou divagar, essas coisas sem utilidade, mas já percebia que a vontade de viver ia lhe faltando. Vinha faltando desde quando o romance de flores, abraços e sonhos ambiciosos foi dando lugar a uma rotina de realidade. Isso foi pouco tempo antes da tal bipolaridade que, na época, ele nem sabia o que era.

Continuou com ela não por uma demonstração maior de amor ou por simples pena. Continuaria com ela de qualquer forma, sem pensar, porque já eram parte um do outro. Queria ficar com ela. As coisas foram ficando mais difíceis e ele as aceitou como quem leva pedradas na cabeça e nada pode fazer para se defender. Ficaria até que tudo acabasse.

Parou e olhou ao redor. Já não havia mais muita gente por perto. A balsa partira, as lojas fecharam. Começou a caminhar definitivamente em direção às águas do lago. Como se lembrasse de algo, estacou. Sentou-se na areia grossa e tirou os sapatos, que haviam sido muito caros. Não suspirou um último desejo e nem lançou um xingamento contra Deus antes de se levantar e voltar a caminhar para a água.

- Eu não quis dizer aquilo.

Assim. Sem câmera lenta, sem música dramática, ela o chamou de volta. Ele virou-se e a viu afastando os fios de cabelos dos olhos. Linda. Ele desabou no chão e começou a chorar. Ela o abraçou, pediu perdão e perguntou como ele a aguentava. Nem ele sabia como aguentava essa vida, mas ficaria até que acabasse. Voltaram para casa. Ninguém lembrou de pegar os sapatos.

 
 
 
  • Thainá Carvalho
  • 21 de ago. de 2017

Busquei uma Marília, uma Capitu, uma Macabéa – uma grande personagem feminina só minha, que me fizesse 'escritora de verdade'.

Nessa busca, encontrei Tâmara, Laís, Aline e muitas outras mulheres. Elas me cederam suas histórias lindas e loucas, assim sem mais nem menos, sem explicações ou justificativas.

As histórias, transformei em poemas que postarei ao longo dos próximos dias.

As meninas - elas já eram poesia há muito tempo.

E um especial: Sobre Cinthia (por ela mesma)

 
 
 

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