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O Jantar

13.03.2019

Um frango a passarinha pra dois, uma porção extra de arroz, uma jarra de suco, e, pra acompanhar, um áudio antes de vomitar no banheiro, por favor.

 

Pare. Falou em voz alta para si mesma. Ela queria parar, ficar interrompida, mas a respiração lhe escapava e os dedos, confusos, não sabiam como responder as mensagens que tinha recebido da outra. Não vai dar certo, e um áudio que ela ainda não tivera coragem de escutar.

Nem coragem, nem vontade. Tem pedido esperando, Andréia. Pense nisso agora. Um frango a passarinha pra dois, uma porção extra de arroz, uma jarra de suco, e, pra acompanhar, um áudio antes de vomitar no banheiro, por favor. Era muita coisa pra botar pra fora, mas a verdade é que ela ainda não estava entendendo nada. Quando deu o horário, a outra tinha se despedido com um beijo e lembrado a ela de levar alguma sobra interessante do restaurante para jantarem. As duas trabalhavam juntas na cozinha, mas, no final de semana, pegavam turnos diferentes. Não vai dar certo, eu gosto de outra pessoa e você não vai poder ficar aqui, em casa conversamos melhor. Mas e o jantar? 

E toda a vida que ela deixara para trás, pensou antes de fechar a porta do apartamento. Não sabia nem como tinha conseguido pegar dois ônibus para chegar. Tudo ali parecia irreal – o pano de prato morto em cima da cadeira da cozinha, a planta murcha de amor, o piso sem chão. Ontem, tinham transado ali, e ela achara que aquilo era mesmo felicidade – finalmente. Jogou, furiosa, a sacola plástica com a marmita de alumínio em cima da pia. Não sabia o que a outra ainda teria para dizer, quais mentiras iria inventar, mas já a odiava por tudo. Tinha que odiá-la, só assim o amor esfriava e ela poderia jogá-lo fora. 

Andréia não vai dar certo pausa as coisas simplesmente aconteceram e eu não tive controle sobre elas pausa e suspiro essa pessoa hesitação eu sempre gostei dela sabe interrogação eu sempre sonhei em ter algo mais com ela mas ela não gostava de mim desse jeito pelo menos era o que eu pensava pausa mas hoje quando saí do trabalho liguei pra ela e contei sobre nós sobre você e sua mudança pra cá que você tinha largado tudo lá pra ficar comigo que já tem uma semana que estamos morando juntas e ela começou a chorar e eu nem estava entendendo nada pausa ela disse que me amava e que queria ficar comigo e eu não acreditei pausa longa andréia eu amo ela e a gente quer ficar junta exclamação eu sei que vai ser difícil pra você entender isso mas ela é o amor da minha vida pausa você hesitação não pode mais ficar aqui morando comigo porque ela não vai aceitar pausa eu preciso que você arranje outro lugar pra ficar suspiro e é isso pausa eu precisei te enviar esse áudio pra te preparar talvez eu não esteja em casa quando você chegar mas depois conversamos.

O áudio era covarde e cruel, uma espécie de boas-vindas à selva. Um desespero foi arranhando as paredes da garganta, começou a rir sozinha. Não se arrependia, apesar de tudo – clichê. Seu segundo casamento já tinha acabado antes mesmo da outra surgir na sua vida. A outra, com cheiro de colo, um abraço que se deixa estar e aqueles olhos. Agora, ela não podia mais ficar, e o mundo inteiro parecia saber disso, menos ela. Surpresa. Agora, ela era a outra. Achava que já não podia ser surpreendida dessa forma, que tudo já tinha lhe acontecido. Sua história daria um desses livros que ela gostaria de ler junto com uma caneca de café e um gato no colo. Não tinha nada desses aconchegos, só o riso e o desespero colavam-se a sua pele como uma tatuagem. Essa ia deixar cicatriz.

Pensou em esperá-la. Não iam jantar? Onde ela estaria? Lambendo seu grande amor com as mesmas juras eternas que trocaram entre si nos últimos meses. Ah, se ela pudesse dar-lhe uma bofetada, arranhar o rosto dela até que suas unhas ficassem em carne viva. E por que não poderia? Não era a outra, a fodida, a que saíra perdendo enquanto todo mundo tinha final feliz? Não, o drama não era do seu feitio. Tinha mais a ver com essas músicas de quem dá a volta por cima e depois deixa que os outros chorem. Ela não ia chorar porque não tinha forças, ela não ia chorar porque não aguentava mais, ela não ia chorar porque não cabia em si. Montou uma mochila às pressas, os detalhes viriam depois, tipo filme. Não sabia pra onde iria, mas não podia ficar. Não se despediu, nada ali teve tempo de tornar-se seu, e ela, ela apenas fingira ser sua. Deixou a chave em cima da mesa da sala e a porta aberta, como uma pequena vingança pessoal. 

Depois do elevador, os quarteirões lhe deram medo. Olhava pras esquinas como se fosse se deparar com ela, como se fosse correr caso alguém ameaçasse amá-la de novo. Andou com pressa até avistar uma pensão com cara de motel. Pagou o quarto antes de subir os dois lances de escada que a separavam do seu novo abrigo. Abriu a porta meio emperrada e sentiu a baforada de tudo o que lhe faltava. Não se lamentou, mas jogou a mochila no chão como se se livrasse de um grande peso. Tirou a marmita da sacola plástica que carregou na fuga. Sentou na cama e comeu as sobras que tinha levado para o jantar.

 

* Conto integrante da coletânea literária "Eu, mulher, existo e resisto", realizada pela Maria Vitória, do blog A Estranhamente 

 

 

 

 

  

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