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#instafolhetim 4: Melodrama sério sem romance

14.09.2017

 

 

A vida é meio bipolar, louca e linda. Há que se ter paciência, mas ela não vai desistir de você.

 

- Queria que você morresse

 

Assim. Sem câmera lenta, sem música dramática. Ela queria que ele morresse e ele não podia falar nada. Ela já tinha dito muitas coisas loucas quando estava fora de controle. Depois, arrependia-se de todas elas. Ela abraçava, pedia perdão e perguntava como ele a aguentava. Nem ele sabia. Mas dessa vez, foi diferente.

 

Ela quis que ele morresse. Sem grito dramático, sem pausa lenta. Veio quase como um desabafo em voz baixa, seguido por um silêncio que esfriou toda a quitinete. Ele ficou com frio e começou a suar. Sentia vontade de vomitar e a boca estava aguada. Não ousava se mexer com medo de que qualquer movimento já fosse resposta.

 

Ela não o olhou. Falou o que falou de costas, enquanto tomava café. Ela devia ter escutado o barulho da porta e sabia que ele acabara de chegar do trabalho. Foi um desses raros dias em que conseguira chegar cedo. No escritório, sempre pediam pra ele tirar todas as xerox nos últimos minutos do expediente. Foi o tempo de colocar as chaves em uma mesinha ao lado da porta e se perguntar como ela estaria hoje.

 

- Queria que você morresse

 

Ela não estava bem. Já tinha um tempo que aquele lado do transtorno se manifestava. Quando as mudanças de humor começaram ele não entendeu muito bem. Afinal, ela estava tomando os remédios, não estava? Não, não estava. Depois de uma busca minuciosa no apartamento por comprimidos escondidos, ela lhe confessara que havia dado descarga em todos. Chorara e dissera que aquilo não era vida. Ele só pensara em como haviam sido caros os comprimidos e os compromissos.

 

De súbito, pegou as chaves e saiu. Não olhou nos olhos dela, não tocou nela, mas sabia o que ela pensava. Ela queria que ele morresse. Desceu as escadas com pressa de quem tinha hora e lugar marcados. A passos rápidos, caminhou para o lago. Já podia sentir a brisa fresca e o barulho da balsa das 6, que sempre estava cheia de gente. Teria que esperar ela sair do cais para fazer o que queria.

 

Resolveu descer ao longo da orla para fazer hora. Não quis pensar muito ou divagar, essas coisas sem utilidade, mas já percebia que a vontade de viver ia lhe faltando. Vinha faltando desde quando o romance de flores, abraços e sonhos ambiciosos foi dando lugar a uma rotina de realidade. Isso foi pouco tempo antes da tal bipolaridade que, na época, ele nem sabia o que era.

 

Continuou com ela não por uma demonstração maior de amor ou por simples pena. Continuaria com ela de qualquer forma, sem pensar, porque já eram parte um do outro. Queria ficar com ela. As coisas foram ficando mais difíceis e ele as aceitou como quem leva pedradas na cabeça e nada pode fazer para se defender. Ficaria até que tudo acabasse.

 

Parou e olhou ao redor. Já não havia mais muita gente por perto. A balsa partira, as lojas fecharam. Começou a caminhar definitivamente em direção às águas do lago. Como se lembrasse de algo, estacou. Sentou-se na areia grossa e tirou os sapatos, que haviam sido muito caros. Não suspirou um último desejo e nem lançou um xingamento contra Deus antes de se levantar e voltar a caminhar para a água.

 

- Eu não quis dizer aquilo.

 

Assim. Sem câmera lenta, sem música dramática, ela o chamou de volta. Ele virou-se e a viu afastando os fios de cabelos dos olhos. Linda. Ele desabou no chão e começou a chorar. Ela o abraçou, pediu perdão e perguntou como ele a aguentava. Nem ele sabia como aguentava essa vida, mas ficaria até que acabasse. Voltaram para casa. Ninguém lembrou de pegar os sapatos.

 

 

 

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