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#instafolhetim 3: A vida de um pelo viajante

28.07.2017

 

Nasci pelo. De cachorro. Não entendo muito sobre raças de cães, mas sei que, de onde vim, havia pelos negros e brancos. Pra ser sincero, não sei qual é a minha cor. Mas isso não tem importância, ou tem? O nome do nosso cão era... era... olhe, já nem lembro mais. Não consigo guardar comigo aquilo que não me é primordial.

Poucos são os pelos que possuem uma vida longa e estável. Mesmo assim, um pelo ou fio de cabelo desgarrado é sempre um misto de curiosidade e terror para aqueles que permanecem fincados em suas raízes. Tudo pode estar ao alcance do novo desbravador agora. Aquele horizonte enorme o abraça – basta um leve empurrão de vento descuidado. Cada novo contato desperta uma rede de sensações novas, inusitadas. Eu sei disso porque fui um pelo arrepiado de excitação, eriçado de medo. Quando finalmente me libertei daquele ritmo sacolejado do cão, fiquei espantado ao saber que podia flutuar. Fui deslocado em diversas direções e ângulos para, nunca finalmente, parar em nova superfície sólida. Aprendi, então, a primeira regra da minha nova vida: inconstância. 

O mover-se é uma arte delicada quando não se depende de si mesmo. A espera por uma ajuda qualquer se tornava um frenesi histérico, mas, logo, meu desejo ia diminuindo e se conformando. Afinal, só me restava o que conviesse ao resto do mundo. Com o tempo, fui me acostumando à matéria, ao vento, ao movimento ou ao que quer me levasse ao próximo ponto de partida. Fato é que, até hoje, nunca cheguei a qualquer final. Apesar de tudo, acho que existem certas vantagens em ser um pelo viajante. O tempo é inútil para mim. Não tenho horários de vôos, atrasos, momento de chegar, de partir. Não tenho tempo perdido. Minha pequeneza me transforma em partícula daquilo que toco: deixo-me em cada parte e levo um pouco de tudo comigo. Não necessito de fotografias, câmeras, telegramas ou lembrancinhas. Também não sei o nome de cidades. Jamais me perdi. Nunca me encontrei. 

São inúmeros os lugares que fazem parte de mim. Já fui arranhado pelo contato áspero de grãos de areia em praias lindas - de fato, grãos de areia não sabem ser muito convidativos porque estão sempre amontoados e lutando por um espaço junto ao mar. Nunca cheguei a atravessar um oceano e o mar me atrai. A única vez em que realmente quis ficar foi em uma praia com flores. Chorei quando parti. A melhor vista que já tive foi quando estive em cima da mão de uma grande estátua de braços abertos. Podia ver uma cidade inteira, vastas baías, e dois montes ligados por teleféricos que, mais tarde, também cheguei a conhecer. Já estive no mesmo lugar duas vezes. Era uma construção parecida com um pequeno palácio, todo de vidro, onde existiam inúmeras plantas, de diversos tamanhos e cores. Lembro-me de como era quente e abafado. Na frente, havia um extenso gramado onde as pessoas gostavam de se sentar, ler, andar. Também já me vi nos lugares mais inusitados. Dentro de flores, em lentes de óculos de grau, em placas de trânsito, em um vestido de noiva. Infelizmente, também já fui parar em lugares desagradáveis: montes de lixo, sapatos apertados, caixas de remédio e debaixo de unhas com todos os tipos de sujeira.

Ao longo da minha viagem, deixei marcas que muitos não chegaram a reparar. Se não fosse por mim, certo rapaz jamais tiraria o “cisco” do olho de uma garota. Algumas pessoas não teriam espirrado e percebido como outras se preocupam com elas. Uma gota d’água não teria se desviado do seu curso e se unido a outra. Acho que, sem querer, devo ter aparecido em muitas fotos. O suficiente para ser conhecido de muitos pelos de cães que passeiam por álbuns de fotografias. 

 

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