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#instafolhetim 2: O gato que vicia

03.07.2017

 

Acendeu um cigarro. Seus dedos tremiam. Tinha sido um dia daqueles e ela bem que merecia alguma coisa pra dar sossego, pra sair dessa merda. Alice tinha torrado sua paciência hoje no trabalho até dizer chega. Ela não aguentou: gritou, chamou Alice de filha da puta, de vaca exploradora. Perdeu o controle. Perdeu o emprego. Voltou a vontade de usar. Já tinham se passado meses desde a última vez, mas não havia um só dia em que ela não tivesse vontade.

O primeiro mês sem usar foi como se cada osso do seu corpo pesasse uma tonelada - e todo o resto flutuasse. Suava o tempo todo e coçava o pescoço compulsivamente. Viciou no que era permitido: café, cigarro, vodka, rivotril. Sentia que todas as células do seu corpo riam, que todas as pessoas riam da sua fraqueza. Sentia que não ia aguentar muito tempo. Passaram-se dois meses contorcidos e agoniados, mas sem ampolas e sem agulhas. Foi aí que ela conseguiu um emprego. Era coisa pouca: atendia telefonemas, imprimia contratos, fingia que trabalhava. Aos poucos, foi conseguindo manter uma aparência de sanidade.

Mal conseguia andar sobre aquelas pedrinhas da rua. Suas pernas cambaleavam, moles e incertas sobre que passo tomar. A quem enganava? Não estava sã. Só estava limpa, constante, entediada. Nada era interessante, nem colorido. Sua vida era uma droga. As pessoas ao seu redor pareciam caricaturas de uma realidade que ela não queria. Tudo era realidade e ferida aberta. Queria a letargia, a paz, a dormência, aquela sensação de que a vida estava toda ali, naquela agulha, em um só momento - sem grito e sem dor. Queria mergulhar, afundar, submergir naquele silêncio líquido. O resto eram só ondas e caos.

Precisava de uma agora, só uma. Seria bom pra parar, relaxar, pensar no que fazer. Logo teria que dizer que estava desempregada. Sua mãe, condescendente, iria lhe perguntar o que tinha acontecido, seu pai iria lhe xingar de doente. Precisava relaxar, de um tempo só seu. Parou e respirou fundo. Já estava perto de casa, não ia conseguir explicar, falar com ninguém. Parou. Encostou-se em uma mureta, abaixou a cabeça e olhou para suas mãos trêmulas. Ia ligar pra Iuri. Pegou o celular. Ia ligar pra ele. Ele era um bom amigo, sempre atendia, sempre tinha o que ela queria. Ela achava que já tinham transado uma vez, mas não tinha muita certeza. Tudo era sempre meio borrado. Os dois tinham se conhecido em uma festa há um tempão. Ele tinha dado umas coisas pra ela experimentar porque achava que ela precisava, ela estava muito tensa. Na época, estava mesmo: final de semestre, quase não tinha tempo pra nada. Foi a pulso pra festa, já nem lembrava por que. Teve uma vontade súbita de chorar.

Quatro meses. Já tinha conseguido ficar sem por quatro meses. Ia ao psicólogo, fazia parte de grupos de ajuda. Ouvia recomendações, conselhos e casos com uma sensação de não pertencimento. Dizia pra si mesmo que não era como essas pessoas, que não era o público dessas propagandas de conscientização. Ela soltou um riso de desespero, uma confissão: ela era exatamente como essas pessoas. Seus joelhos fraquejaram. Dobrou-se, desabou. Seu celular caiu no chão, mas ela não se importou. O choro já era convulsivo. Não havia ninguém na rua. Não havia mais nada.

Ouviu um miado. Não tinha percebido um gato que se roçava nela. O gato parecia pedir algo. Como ela podia saber? Ela gostava de bichos, mas nunca havia tido um. O gato era bonito, não parecia maltratado como ela. Ela o alisou, sentiu seu pelo meio sujo. O contato a acalmou. Nem se preocupou que ele pudesse mordê-la. Na verdade, ele não era o perigo. Ele se deitou, encostado em sua coxa. Ela gostou da sensação, do calor daquele corpo ínfimo.

Ela olhou ao redor. Não viu ninguém. O gato continuava miando. Ela o alisava com as pontas dos dedos, contornando suas orelhas, suas patas, como se ele fosse uma espécie de mensagem, um recado pedindo para que ela decidisse logo o que ia fazer porque o prazo já estava acabando. O gato parecia precisar de ajuda – assim como ela. E ela não podia fazer nada, podia? Encostou-se no murinho e fechou os olhos. Continuou alisando o gato.

Não sabia bem quanto tempo tinha ficado ali, mas já escurecia. Ela não tinha mais vontade de chorar. Sentia apenas aquela sonolência que vinha depois das lágrimas, um torpor quase viciante. Era só disso que ela estava precisando. O gato olhava com curiosidade para um cordãozinho do capuz do seu casaco. Ele não a julgava, não a evitava, não a chamava de doente. Ele não era condescendente, não fingia entender pelo que ela estava passando. Ela soltou um riso abafado. Ele era a letargia, a paz, a sensação de que a vida estava toda ali, em um só momento - sem grito e sem dor. Era só disso que ela estava precisando. Pegou o gato no colo, levantou-se e foi andando para casa.

 

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