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Um desejo apenas

31.05.2017

 Vão dizer que esse texto é rebuscado. Concordo, mesóclise cansa e é muito presidencial. Juro que essa linguagem mais formal tem um objetivo: afastar ainda mais o protagonista do seu desejo,  tipo 'não te dei intimidade'.  

 

Queria cortar teus cachos. Em queda livre, eles tentariam colar em tua pele, delinear tuas curvas. Ah, mas em fazer isso não falham somente eles: também eu me esforço para ficar em ti, agarrando-me à raiz de teus pensamentos.

 

Queria cortar teus cachos. O toque frio da tesoura mal arrepiaria se comparado ao frenesi que me causa a tua aproximação, o teu cheiro que me chega antes, muito antes de tudo. Às vezes, de longe já, tu sorris quando me vês. Só às vezes. Agradar-te é difícil e eu menos o consigo se mais o tento. Já tu, mais e mais me tentas.

 

Queria cortar teus cachos. E, quase sem querer, roçar os pequeninos pelos do teu pescoço. Incomodar-te-ia, decerto, meu toque rude, minha simplicidade. És tão complexa, posso ver-te em milhares de pedaços que não consigo encaixar. Tua mão que ora apega-se a minha, ora a repele. Teus lábios que ora me acarinham, ora tripudiam de mim. Teus olhos, olhos choram, olhos riem. Esfinge que és, dás a falsa esperança de que posso decifrar teu enigmalma. Tens prazer em devorar-me tanto quanto eu tenho em ser destruído por tua voracidade, tuas unhas, teus espasmos, teus gemidos. Matas sem que eu o evite.

 

Queria cortar teus cachos. Aos poucos, sem que te desses conta, envolveria tua gargantilha de ouro com minhas mãos e, inconscientemente, apertaria. Quebraria, apertaria. Tu sufocarias de amor enquanto meus dedos manchariam de roxo tua carne. Marcar-te-ia e, então, serias minha. Já não teria medo de sussurrar ao teu ouvido que te amo, de fechar tuas pálpebras e imaginar que sonhas comigo.

 

Queria cortar teus cachos. Então, vislumbraria o vale nu das tuas costas, iluminado por uma constelação de sinais escuros, negros, que parecem traçar meu caminho - justo para onde não ouso ir. Tuas curvas abruptas me assustam tanto quanto me fascinam. Perder-me-ia sem volta... mas, que digo? Já estou sem rumo e tu me confundes. Peço-te para parar mas corres e eu fico sem fôlego, sem ti.

 

Queria cortar teus cachos. E que te importa isso, indomável? Antes mesmo que os pedisse, tu os arrancaria para entregá-los em uma bandeja de prata. Deixá-los-ia, deixar-me-ia. Partiria, livre de desejos alheios, repleta de vontades, completa em si.

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